
“Dona de mim” chegou como quem não pede licença. Instalou-se no cotidiano do público com a segurança de quem sabe o que quer contar e, principalmente, para quem quer contar. Rosane Svartman, já conhecida por transformar temas espinhosos em dramaturgia popular, entregou uma novela que dialogou diretamente com o seu tempo.
Foi um sucesso de público e de conversa. Daqueles que rendem discussão nas redes sociais. Os personagens ganharam vida para além da tela: imperfeitos, afetivos, às vezes irritantes, quase sempre reconhecíveis. Havia ali um espelho possível para cada espectador, seja na força de quem tenta se reconstruir, seja na fragilidade de quem não dá conta de tudo o tempo todo.
“Dona de mim” não teve medo de atravessar terrenos difíceis. Falou de estupro com a seriedade que o tema exige, sem romantização, abrindo espaço para discutir os traumas por meio de uma atuação potente de Giovanna Lancellotti. Abordou o Alzheimer com delicadeza, transformando o esquecimento em dor cotidiana, dessas que não gritam, mas corroem, e presenteou Suely Franco com um dos papéis mais sensíveis e delicados de sua carreira, no qual brilhou. E deu à bipolaridade um tratamento raro na teledramaturgia: humano, sem reduzi-la a surtos ou rótulos fáceis; momentos que fizeram o público se reaproximar de Cláudia Abreu, depois de um longo hiato longe das novelas.
Mas, como toda produção longa, “Dona de mim” também sentiu o peso do tempo. Foram 218 capítulos e fases em que a trama pareceu, em alguns momentos, andar em círculos: conflitos esticados além do necessário e personagens que perderam momentaneamente a força, como Leona, vivida por Clara Moneke, que, na ausência de arcos dramáticos mais consistentes, acabou perdendo o protagonismo para outros personagens mais densos. É o risco de toda obra diária: manter o fôlego enquanto a vida real insiste em mudar mais rápido que a ficção.
Ainda assim, mesmo nos momentos menos inspirados, a novela nunca perdeu sua identidade. Havia sempre um diálogo bem escrito, um olhar poético que lembrava ao público por que aquela história importava. “Dona de mim” talvez não tenha sido perfeita, mas foi honesta.
No fim, ficou a sensação de dever cumprido. De ter criado personagens que erraram, acertaram, sofreram e seguiram em frente. Uma trama que, apesar do cansaço natural da extensa jornada, reafirmou o poder da teledramaturgia de emocionar, provocar e, acima de tudo, humanizar.