Deolane Bezerra atuava como 'caixa do crime organizado' no esquema de lavagem de dinheiro, afirma investigação

Os agentes de segurança detalharam que as cifras oriundas do grupo criminoso entravam em contas bancárias vinculadas à criadora de conteúdo, misturando-se a faturamentos de suas demais áreas de atuação

21/05/2026 às 18h06
Por: Marcela Mattiolli Colaboração para Felipeh Campos Fonte: g1
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Reprodução: Redes Sociais
Reprodução: Redes Sociais

A advogada e criadora de conteúdo Deolane Bezerra, detida pelas autoridades nesta quinta-feira (21), exercia o papel de gestora financeira para uma das maiores organizações criminosas do país. Conforme os levantamentos conduzidos pelo Ministério Público e pela Polícia Civil paulista, ela colaborava ativamente ocultando a origem de capital ilícito ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Os agentes de segurança detalharam que as cifras oriundas do grupo criminoso entravam em contas bancárias vinculadas à criadora de conteúdo, misturando-se a faturamentos de suas demais áreas de atuação. Esse processo dificultava a fiscalização das movimentações financeiras antes que o montante regressasse aos cofres da facção. Para viabilizar o trânsito dos valores ocultos, a rede utilizava uma companhia de logística e transporte localizada em Presidente Venceslau, município do interior do estado.

Embora a apuração tenha constatado repasses e transações bancárias recorrentes, o volume financeiro total transferido da transportadora para a influenciadora digital ainda está sendo contabilizado pelos peritos. Por determinação judicial, Deolane teve ativos que somam R$ 27 milhões retidos eletronicamente.

A Estrutura da Operação e os Bastidores do Fluxo Bancário

De acordo com o delegado Edmar Caparroz, do 2º Distrito Policial de Presidente Venceslau, região que abriga unidades prisionais de segurança máxima e a sede da empresa de transportes envolvida, a projeção midiática e o patrimônio da advogada foram determinantes para sua escalação na engrenagem delituosa.

"Entendemos ao longo da investigação que a Deolane, até pelo poder econômico que ela adquiriu ao longo do tempo e pela influência, ela funcione como uma espécie de caixa do crime organizado", afirmou o delegado Edmar Caparroz.

A força-tarefa mapeou uma rede de transações eletrônicas ramificada por contas de CPFs e CNPJs variados. Essa engrenagem representa a fase de dissimulação da lavagem de dinheiro, cujo principal intuito é desvincular o dinheiro de sua procedência ilegal, frustrando os mecanismos de controle fiscal.

"O crime organizado deposita os valores nessa figura pública, esse dinheiro acaba se misturando com o dinheiro de outras atividades, e quando precisa esses recursos retornam para o crime organizado", acrescentou Caparroz.

Alvos de Prisão e os Desdobramentos Defensivos

A captura da advogada ocorreu em sua residência, num condomínio de alto padrão em Alphaville, Barueri. A ofensiva policial também emitiu ordens de prisão contra o principal líder da facção, Marcos Willians Herbas Camacho (Marcola), que já cumpre pena em regime fechado, além de seus entes familiares. Entre os detidos na investida estão Everton de Souza, o "Player", apontado como o articulador financeiro do grupo, e Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola, localizada em território espanhol.

Investigados e Situação Legal
Deolane Bezerra
Marcos Willians (Marcola)
Everton de Souza ("Player")
Paloma Sanches Herbas Camacho

Procurado pela imprensa, o defensor de Deolane, Luiz Imparato, informou que está avaliando as peças do inquérito para se posicionar. Bruno Ferullo, responsável pela representação jurídica de Marcola, declarou similarmente que analisa o teor das acusações. As equipes técnicas dos demais implicados não foram encontradas para declarações.

Da Apreensão de Manuscritos ao Monitoramento Digital

O estopim para o monitoramento de Deolane Bezerra na Operação Vérnix ocorreu com a interceptação de bilhetes e notas escritas à mão em uma ala carcerária de Presidente Venceslau, ainda em 2019. O cruzamento de dados indicou comunicações sobre uma "mulher da transportadora", a quem cabia o levantamento de dados domiciliares de servidores públicos para dar suporte a atentados planejados pela cúpula.

Posteriormente, em 2021, desdobramentos da Operação Lado a Lado culminaram na apreensão do smartphone de Ciro Cesar Lemos, figura-chave na coordenação do esquema. Os dados contidos no aparelho trouxeram à tona o esquema de lavagem via empresa de cargas e selaram o vínculo financeiro com a advogada.

Registros de imagem recuperados no celular mostravam comprovantes de depósitos destinados a contas de Deolane e do operador financeiro "Player".

"O vínculo dela com a transportadora foi o pontapé inicial para a investigação, mas com afastamento de sigilos bancário e fiscal, verificamos que ela mantém relação com outras vertentes do crime organizado", declarou o delegado Edmar Caparroz durante entrevista coletiva.

A engenharia investigativa cruzou o material apreendido nos últimos anos com relatórios detalhados de órgãos de controle financeiro sobre as contas empresariais e particulares de Deolane Bezerra. As provas indicam que a influenciadora atuava como destinatária final de remessas em espécie, operacionalizadas a partir do faturamento clandestino e sob ordens diretas dos líderes do comando.

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